O país do futebol, sem dúvida

A história de que o Brasil é o país do futebol anda com seu enredo ameaçado, pelo menos no que diz respeito ao nosso domínio no mundo. Mesmo assim, ainda existem motivos para acreditar. Antes, era quase inquestionável, e tínhamos como prova a conquista de cinco dos 12  campeonatos mundiais disputados entre 1958 e 2002, período em que o Brasil botava craques pelo ladrão. Nascia craque até na goiabeira, e os jogos arrebatavam multidões. Os jogadores brasileiros eram vistos como os melhores do mundo. Se a compra de atletas ou transferência para o exterior fosse fácil como hoje, provavelmente metade dos jogadores brasileiros seriam contratados por times europeus.

Desde a década de 1950 os estádios no Brasil lotavam, mesmo em partidas dos campeonatos estaduais. No Maracanã, da década de 1950 a 1970, a lotação nos principais jogos sempre era acima de 150 mil pessoas. O Morumbi também lotava, e se fosse maior teria batido recordes em jogos estaduais. Mas quando se tratava de Seleção Brasileira, faltava espaço nos estádios. Na final da Copa de 1950 entre Brasil e Uruguai, o público pagante chegou a 173 mil pessoas, mas estima-se que mais de 200 mil se comprimiram no Maracanã. Até no teto tinha gente pendurada.

No mesmo estádio, em 1969, nas eliminatórias da Copa de 1970, a partida entre Brasil e Paraguai teve o registro do maior público oficial da história no país, com 183 mil pagantes. A estimativa é que também nesse jogo o público tenha superado 200 mil pessoas. E várias outras partidas chegaram perto desses números. Tanto os jogos da Seleção quanto os dos estaduais no Maracanã estão entre os maiores públicos do mundo inteiro.

Hoje o Maracanã é uma triste lembrança dos áureos tempos, pois mal chega a suportar 80 mil torcedores. O encolhimento foi obra da FIFA com a Prefeitura do Rio de Janeiro: primeiro para o Mundial de Clubes de 2000, depois outra reforma para os Jogos Panamericanos de 2007. A última pá de cal foi jogada na reforma para a Copa de 2014. Nem Fifa nem Prefeitura tiveram a mínima consideração pela história do estádio e do nosso futebol, matando aquela aura para sempre. O castigo veio no vexame dos 7 x 1, e ter a final da Copa disputada no nosso templo sagrado pela Argentina e Alemanha.

Hoje vários estádios do mundo lotam mais que o Mario Filho. Piorando a situação, os jogadores brasileiros, no geral, estão numa posição intermediária no ranking mundial, e nosso futebol luta para ficar com o pescoço fora d’água. Tínhamos até o Rei do Futebol, mas o único produto brasileiro que manteve a majestade no exterior foi o café.

Ainda assim temos o futebol como uma das maiores manifestações da nossa cultura. A bola rola em qualquer lugar,  e em quase todas as famílias existem os apaixonados pela bola, ou os que jogam, mesmo que seja na rua ou na várzea. No trabalho, na escola e no clube sempre tem a turma do futebol, seja de campo, de salão ou futebol 7.

Outra razão para sermos o país do futebol, é que na Copa do Mundo se promove aqui um misto de carnaval e passagem de ano fora de época. Não é preciso dizer muito sobre esse costume pois de norte a sul do país a manifestação é a mesma. No exterior, a torcida brasileira se sente mais em casa do que nunca. Na Copa da Rússia, em 2018, a agitação da torcida brasileira até tornou-se assunto dos noticiários locais, e as câmeras dos russos nunca filmaram tanto como na ocasião. A admiração dos russos por nossa festa fez com que o Brasil se tornasse um dos destinos favoritos deles. Muitos vieram para o Brasil e não foram mais embora.

O grande impacto, no entanto, foi em 1982, quando a torcida brasileira tomou a Espanha de assalto, coloriu os estádios com a camiseta amarela e deixou os espanhóis atônitos. O jornalista Armando Nogueira  dizia numa crônica da época que os brasileiros deixaram os espanhóis horrorizados ao irem a uma tourada e torcerem pelo touro. Provavelmente isto não ocorreu, mas se fosse verdade estaria bem dentro do espírito transgressor brasileiro.

Agora as torcidas de todos os países enchem os estádios com as suas cores, como o Brasil começou a colorir em 1982. E da mesma forma, suas torcidas vão para a rua fazer barulho. Mas até agora ninguém superou a nossa torcida nos estádios cantando o hino nacional. Os brasileiros nunca se conformaram em ouvir o hino respeitosamente como fazem os outros. Abrem a goela, mesmo não sabendo direito a letra. Já teve partida em que o hino acabou de tocar e a multidão continuou cantando até a última estrofe, a ponto de a organização da partida esperar o fim da cantoria para iniciar o outro. Por essas e por outras é que ainda somos vistos como o país do futebol. Em qualquer parte do mundo é sempre a nossa maior referência. Não há como saber se isto é bom ou não. Poderíamos ser o país da educação, da justiça, da igualdade, ou da tecnologia, mas quis o destino que fôssemos reconhecidos por esta arte. Pelo menos não somos odiados, e por causa do futebol muitos nos olham até com mais simpatia.

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