BLUMENAU: O GIGANTE QUE DORME ENTRE EVENTOS E PROMESSAS

Um alerta sobre a inércia do poder público, o desperdício de infraestrutura e o exemplo que vem da vizinha Pomerode

O Potencial Desperdiçado: A Visão de Quem Viaja

Como executivo de uma empresa que desenvolve, importa e vende tecnologia para indústria têxtil, minha rotina é pautada por aeroportos, hotéis e reuniões em todos os cantos do Brasil. De Fortaleza a Bento Gonçalves, quando apresento meu cartão de visitas e o interlocutor lê “Blumenau”, o semblante muda. Existe um respeito imediato. Nossos clientes não compram apenas tecnologia; eles compram a confiança depositada em uma cidade que é sinônimo de eficiência, segurança e hospitalidade. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi: “Vocês moram no paraíso”. E, de fato, moramos!

Entretanto, essa percepção externa contrasta severamente com a realidade que observamos no dia a dia da nossa gestão pública. O potencial de Blumenau é gigantesco, mas parece estar sendo drenado por uma passividade crônica. Um exemplo claro é a Febratex. Em agosto de 2026, chegaremos à sua 19ª edição, ocupando todos os pavilhões no Parque Vila Germânica, além de estruturas externas montadas especialmente para o evento. É um momento de glória: hotéis com 100% de ocupação, restaurantes com filas de espera e o comércio vibrando. A feira prova que temos infraestrutura e competência para sermos o maior polo de eventos do Sul do país. Mas a pergunta que me faço, enquanto empresário, é: por que esse vigor só acontece em espasmos? Por que permitimos que a cidade opere no limite apenas em datas isoladas, enquanto o resto do calendário é marcado por uma calmaria que beira a estagnação?

O Centro de Convenções: Uma Saga de Fundações Vazias

A competitividade de uma cidade no turismo de negócios depende de infraestrutura. Em junho de 2022, assistimos com otimismo à assinatura da ordem de serviço para o Centro de Convenções de Blumenau, batizado em homenagem a Paulo França. O projeto era ambicioso e necessário: 11,5 mil metros quadrados, três pavimentos e um salão principal para 1.340 pessoas. O investimento, inicialmente estimado em R$ 38 milhões, mas que, com obras complementares e desapropriações, poderia chegar a R$ 116 milhões, contava com um repasse de R$ 28 milhões do Estado.

Quatro anos depois, o que temos? Apenas fundações. Em maio de 2023, a Prefeitura rescindiu o contrato com a empresa responsável por descumprimento de prazos. Desde então, o canteiro de obras tornou-se um monumento à ineficiência. Chegamos ao ponto irônico de ver o local ser utilizado provisoriamente como parque de diversões durante a Oktoberfest de 2025. Enquanto Joinville, Florianópolis e Balneário Camboriú avançam com estruturas modernas, Blumenau patina em processos burocráticos e obras paralisadas. Sem um centro de convenções funcional, perdemos eventos de médio e grande porte que poderiam preencher as lacunas do nosso calendário hoteleiro. É um desperdício de dinheiro público e de oportunidade de mercado.

A Sombra da Corrupção e o “Pedágio” do Atraso

Não se pode falar de obras paradas sem tocar na ferida que sangra a confiança do cidadão blumenauense. A administração anterior e sua equipe deixaram um legado de suspeitas que as investigações recentes começam a descortinar. A Operação Ponto Final, deflagrada pelo GAECO em maio de 2026, trouxe à tona um suposto cartel na construção civil que teria operado entre 2020 e 2023. O bloqueio de R$ 117 milhões em bens dos investigados dá a dimensão do que pode ter sido desviado ou mal gerido.

Somada a isso, a Operação Sentinela investiga esquemas em contratos de segurança e limpeza urbana entre 2021 e 2024. Como observador da cena local, a percepção que se consolidou na cidade, e que as investigações parecem corroborar, é a de que a gestão operava sob uma lógica de “pedágio”. Ficava a nítida impressão de que nem uma pedra era assentada para a municipalidade sem que houvesse algum tipo de acerto paralelo. Esse histórico, que remete aos tempos sombrios da Operação Tapete Negro em 2013, não apenas drena recursos, mas afasta empresas sérias de licitações públicas, resultando em obras mal executadas ou abandonadas, como o nosso famigerado Centro de Convenções.

Promessas ao Vento: A Feira Livre Inexistente

Outro exemplo da desconexão entre o discurso político e a entrega real é a nova Feira Livre prometida para as imediações da Vila Germânica. O projeto, que deveria integrar o complexo turístico e oferecer um espaço digno para os produtores locais e artesãos, nunca saiu do papel. É mais uma promessa que contribui para a sensação de que Blumenau está em “modo de espera”. Uma feira livre moderna é um ativo turístico em qualquer lugar do mundo; aqui, é apenas um item em um plano de governo esquecido em alguma gaveta da prefeitura.

Estruturas Ociosas: Vila Germânica e o Elefante Branco do SESI

A Vila Germânica é, sem dúvida, nossa joia da coroa. No entanto, conversando com promotores de feiras e eventos, a reclamação é uníssona: os valores de locação cobrados pela Prefeitura são proibitivos. Em vez de atuar como um facilitador, o poder público parece enxergar os pavilhões apenas como uma fonte de arrecadação imediata, inibindo a realização de novos eventos que trariam turistas para a cidade. É uma visão míope que prefere o pavilhão vazio ao pavilhão ocupado com margens menores, ou simplesmente a um custo de manutenção, pois pode ser um indutor de resultados indiretos.

Da mesma forma, o Complexo Esportivo do SESI permanece como um “elefante branco”. Uma estrutura daquela magnitude, capaz de sediar competições nacionais e internacionais, é subutilizada por falta de uma política agressiva de captação de eventos esportivos. Blumenau tem geografia para esportes de aventura e infraestrutura para o esporte de alto rendimento, mas falta o “vendedor”, falta a articulação política para colocar esses espaços no mapa das grandes confederações.

A Inércia da Secretaria de Turismo

A Secretaria de Turismo e Lazer faz um trabalho competente na manutenção do “arroz com feijão”: Oktoberfest, Páscoa e Natal. São eventos consolidados, mas que hoje atendem, nos eventos de Páscoa e Natal, majoritariamente ao público regional. Onde está a estratégia para o turismo de 365 dias? O Observatório de Turismo foi um passo positivo, mas dados sem ação são apenas planilhas. Fomos citados pela Booking.com como destino tendência para 2024, um reconhecimento internacional de ouro que não foi capitalizado. Recentemente a Sectur apresentou na Câmara de Vereadores um balanço das principais ações desenvolvidas em 2025 e 2026… mas essas ações parecem não se traduzir em efeitos práticos para a cidade. Essa aparente passividade da Sectur acaba gerando um efeito cascata na iniciativa privada: se o poder público não induz o movimento, o setor hoteleiro e gastronômico tende a se acomodar na zona de conforto dos grandes eventos de outubro.

O Espelho de Pomerode: Quando o Menor Ensina o Maior

Basta dirigir 30 minutos para ver como se faz. Pomerode, com uma fração do orçamento de Blumenau, tornou-se um case de sucesso mundial. A Rota do Enxaimel foi reconhecida pela ONU Turismo como uma das melhores vilas turísticas do mundo. Com cerca de 50 casas históricas ao longo de 16 km, a cidade transformou patrimônio em produto turístico de alto valor.

Pomerode atrai 1 milhão de visitantes por ano com um calendário que não dá trégua à baixa temporada: Festa Pomerana em janeiro, Osterfest na Páscoa, Festival Gastronômico em julho e o Natal no fim do ano. Enquanto Blumenau discute obras paradas, Pomerode inaugura safaris no Zoo, teleféricos no Alles Park e museus temáticos. Eles reinvestem a arrecadação em segurança e paisagismo, criando um círculo virtuoso. Pomerode prova que o sucesso turístico não depende de tamanho, mas de visão e continuidade.

A Realidade dos Números: Uma Safra Curta Demais

Os dados do Sihorbs mostram que na 40ª Oktoberfest (2025), atingimos 83,85% de ocupação hoteleira. É um número excelente. Contudo, quando olhamos para os dados da plataforma AirDNA sobre aluguéis de curta temporada, vemos que Blumenau possui 2.910 anúncios ativos com uma ocupação média anual de apenas 39%. A diária média de US$ 68 reflete uma demanda que despenca assim que os canecos de chope são guardados.

Essa disparidade é o diagnóstico do nosso problema: nossa “safra” é curta demais. Se conseguíssemos elevar a ocupação média anual em apenas 10% ou 15% através de um calendário de eventos técnicos, esportivos e culturais distribuídos, o impacto na economia local seria transformador. Dinheiro que circula no hotel, circula no táxi, no restaurante e na loja de roupas, todos os setores se beneficiam e a economia da cidade cresce…

O Papel do Município: Promotor, Não Construtor

É preciso deixar claro: não defendo de forma alguma que a Prefeitura deva construir hotéis ou parques temáticos. O investimento em estrutura deve ser, sempre, da iniciativa privada. O papel do poder público é ser o indutor. O município deve criar as condições: incentivos fiscais para novos empreendimentos, simplificação da burocracia para eventos e, acima de tudo, ser o grande articulador entre os setores.

A Prefeitura deveria ser a maior “vendedora” de Blumenau. Precisamos de uma gestão que bata na porta de grandes empresas, federações esportivas e organizadores de feiras, oferecendo a Vila Germânica e o Complexo do SESI, por exemplo, com condições atrativas. O poder público deve ser o promotor que garante que a cidade esteja limpa, segura e iluminada para que o turista queira voltar em março, julho ou setembro.

Um Alerta às Autoridades

Blumenau tem todos os ingredientes para ser um destino de fluxo contínuo. Temos a segurança que o turista brasileiro tanto busca, uma gastronomia de excelência e uma cultura rica. No entanto, estamos assistindo a uma passividade que nos custa caro. O exemplo de Pomerode está logo ali para nos lembrar que a inércia é uma escolha, não um destino.

O Centro de Convenções paralisado, a Vila Germânica subutilizada e o Complexo do SESI ocioso são sintomas de uma cidade que parou de olhar para o futuro com ousadia. Aos nossos governantes, fica o alerta: a hospitalidade do blumenauense é o nosso maior ativo, mas ela sozinha não sustenta uma economia. É preciso gestão, transparência e, acima de tudo, proatividade. A safra do turismo pode ser o ano inteiro; basta que o poder público assuma seu papel de liderança e pare de se contentar com o sucesso passageiro de outubro.

Edson José de Souza.
Engenheiro e Empreendedor

Compartilhe:

Uma resposta

  1. Blog com informações inteligentes e pautadas com verdades e conhecimento de quem se envolve para uma melhoria da cidade e de sua população. Parabéns!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Carregando Publicidade...
Receba dicas e recursos gratuitos diretamente em seu email, junto com mais de 10.000 pessoas

BLUMENAU: O GIGANTE QUE DORME ENTRE EVENTOS E PROMESSAS

Entrar

Cadastrar

Necessário para emissão de nota fiscal no futuro.

Redefinir senha

Digite o seu nome de usuário ou endereço de e-mail, você receberá um link para criar uma nova senha por e-mail.