Inadimplência preocupa em Santa Catarina, mas aumento nas negociações mostra busca dos consumidores por regularização

Redação Site de Blumenau

Entrevista com: Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira

Santa Catarina vive um cenário de atenção quando o assunto é saúde financeira dos consumidores. O estado soma atualmente 2,67 milhões de pessoas inadimplentes e quase 11,9 milhões de dívidas, que representam um estoque superior a R$ 26 bilhões.

Apesar do elevado volume de débitos, alguns indicadores apontam para um movimento positivo: entre maio e julho, o número de acordos realizados em Santa Catarina cresceu 37% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram mais de 438 mil acordos, realizados por aproximadamente 67 mil consumidores por meio do Serasa Limpa Nome.

O crescimento das negociações mostra que, além do desafio representado pela inadimplência, existe também uma parcela significativa de consumidores buscando alternativas para colocar as contas em dia, reorganizar o orçamento e recuperar gradualmente o controle da vida financeira.

Mas o cenário ainda exige atenção. O número de inadimplentes cresceu apenas 0,14% em julho, enquanto o estoque total das dívidas permanece acima dos R$ 26 bilhões. A diferença entre esses indicadores revela que o problema não está apenas na quantidade de pessoas endividadas, mas também na quantidade e no valor das dívidas acumuladas ao longo do tempo.

Entre os principais tipos de dívida registrados em Santa Catarina estão os relacionados a bancos e cartões, que representam 22,79% dos débitos, seguidos pelas financeiras, com 17,82%. Serviços, varejo, cooperativas, utilities e telecomunicações também aparecem entre os segmentos com participação relevante.

O perfil dos inadimplentes também chama a atenção. A faixa etária entre 26 e 40 anos concentra 37,1% dos consumidores inadimplentes, enquanto aqueles entre 41 e 60 anos representam 34%. Homens correspondem a 52,2% dos inadimplentes e mulheres a 47,8%.

Ao mesmo tempo, pesquisas apontam uma preocupação crescente dos brasileiros com o próprio orçamento. A intenção de economizar aumentou de 64% para 69%, indicando que mais consumidores estão colocando o planejamento financeiro entre suas prioridades — embora ainda seja necessário transformar essa intenção em hábitos concretos.

Renegociação pode ser um caminho

Para quem está inadimplente, o primeiro passo é conhecer exatamente a própria situação financeira: levantar todas as dívidas, identificar os credores, verificar juros e condições de pagamento e colocar na ponta do lápis quanto entra e quanto sai todos os meses.

A renegociação pode ser uma alternativa importante, desde que as condições estejam de acordo com a capacidade real de pagamento. Uma parcela que parece pequena, mas que compromete o orçamento durante meses, pode acabar criando um novo problema.

Também é fundamental analisar o valor total que será pago, e não apenas o valor da parcela, antes de aceitar qualquer acordo.

Entrevista aborda os desafios e caminhos para sair da inadimplência

Para entender melhor esse cenário e orientar os consumidores sobre como lidar com as dívidas, o Site de Blumenau conversou sobre os principais desafios relacionados à inadimplência em Santa Catarina.

Na entrevista, são abordados temas como o crescimento das negociações, o perfil dos consumidores inadimplentes, os principais tipos de dívida, os erros mais comuns de planejamento financeiro e os cuidados necessários antes de aceitar uma renegociação.

A conversa também traz orientações práticas para quem está com o nome negativado e busca reorganizar as finanças, além de discutir como evitar que o consumidor volte a se endividar depois de conseguir regularizar sua situação.

Confira a entrevista completa e veja quais são os caminhos indicados para quem deseja colocar a vida financeira em ordem.

1.Vocês possuem dados sobre a inadimplência especificamente em Blumenau ou no Vale do Itajaí? Se sim, como esses números se comparam com os dados de Santa Catarina?

Sim. O Mapa da Inadimplência e Negociação de Dívidas da Serasa, referente a julho de 2026, mostra que Blumenau possui 131.364 pessoas inadimplentes, com 620.344 dívidas registradas, que somam aproximadamente R$ 1,32 bilhão. Em comparação com Santa Catarina, Blumenau concentra cerca de 4,9% dos inadimplentes do estado. O ticket médio de dívidas por inadimplente na cidade é de R$ 10.073,15, um pouco acima da média catarinense, de R$ 9.761,06. Já o valor médio de cada dívida em Blumenau é de R$ 2.133,09, abaixo da média estadual, de R$ 2.205,32. 

É importante destacar que o Mapa permite observar o tamanho e o perfil da inadimplência nos diferentes recortes, mas não aponta, isoladamente, as causas desse cenário em cada município. Por isso, a comparação entre Blumenau e Santa Catarina deve ser entendida principalmente como um retrato do volume de consumidores e dívidas registrados no período.

  1. Se possível, vocês poderiam comentar quais são as principais dívidas ou segmentos que mais pesam no orçamento dos consumidores de Blumenau e região?

O Mapa não apresenta os segmentos das dívidas especificamente por município ou por região, apenas por estado. Dessa forma, os dados de Santa Catarina mostram que os segmentos de bancos/cartões concentram 22,79% das dívidas, seguidos por financeiras, com 17,82%, serviços, com 13,66%, e varejo, com 12,03%. Também aparecem cooperativas, com 10,65%, utilities, que reúnem serviços essenciais como água, energia e gás, com 9,72%, telecom, com 5,51%, e securitizadoras, com 2,53%. Os dados mostram, portanto, um peso relevante dos segmentos ligados ao crédito e aos serviços financeiros: somados, bancos/cartões e financeiras respondem por 40,61% das dívidas registradas no estado.

  1. Santa Catarina tem 2,67 milhões de adultos inadimplentes, o equivalente a 41,6% da população adulta. O que explica esse nível de inadimplência no Estado?

A inadimplência é resultado de uma combinação de fatores que podem impactar o orçamento das famílias, como o comprometimento da renda com despesas do dia a dia, o uso do crédito e a dificuldade de equilibrar receitas e despesas diante de imprevistos. 

Em Santa Catarina, a própria composição das dívidas mostra a presença importante de compromissos relacionados ao crédito e aos serviços financeiros, além de despesas de consumo e serviços. 

No estado catarinense, foram mais de 438 mil acordos realizados no Serasa Limpa Nome entre maio e julho, um crescimento de 37% em relação ao mesmo período do ano passado. Isso mostra que, além do desafio da inadimplência, existe também um movimento de busca pela regularização financeira.

  1. Mesmo com a inadimplência crescendo apenas 0,14% em julho, o estoque de dívidas ultrapassa R$ 26 bilhões. Como interpretar essa diferença entre o número de inadimplentes e o volume total das dívidas?

Os dois indicadores ajudam a enxergar dimensões diferentes da inadimplência. O número de inadimplentes mostra quantas pessoas estão com alguma dívida em atraso, enquanto o estoque de dívidas representa a soma dos débitos registrados dessas pessoas ao longo dos anos, não apenas no mês. Por isso, mesmo uma variação moderada na quantidade de inadimplentes pode coexistir com um volume elevado de dívidas. Um mesmo consumidor pode ter mais de uma dívida em aberto, e os valores também variam de acordo com o tipo de compromisso financeiro. Em Santa Catarina, são 2,67 milhões de pessoas inadimplentes e quase 11,9 milhões de dívidas, que somam mais de R$ 26 bilhões. O cenário reforça que o desafio não está apenas em reduzir o número de pessoas inadimplentes, mas também em criar condições para que os consumidores consigam regularizar seus débitos e reorganizar o orçamento.

  1. O número de acordos realizados em Santa Catarina cresceu 37% entre maio e julho. Esse aumento indica que os consumidores estão conseguindo recuperar a capacidade de pagamento ou que estão apenas reorganizando dívidas antigas?

O crescimento de 37% no número de acordos realizados em Santa Catarina mostra um movimento mais forte dos consumidores em direção à regularização das dívidas. Essas negociações foram realizadas por meio do Serasa Limpa Nome, plataforma da Serasa que reúne ofertas de empresas credoras para que os consumidores possam consultar seus débitos e negociar condições para a regularização. Entre maio e julho, mais de 438 mil acordos foram realizados no estado por cerca de 67 mil consumidores. A renegociação permite reorganizar compromissos financeiros já existentes, muitas vezes encontrando condições mais adequadas à realidade atual do consumidor para quitar os débitos. Esse movimento não significa necessariamente que todos os consumidores tenham recuperado integralmente sua capacidade de pagamento, mas indica uma disposição maior para buscar soluções e retomar o controle das finanças.

  1. Quais são os principais tipos de dívida que atualmente levam os catarinenses à inadimplência?

Em Santa Catarina, os dados do Mapa da Inadimplência mostram uma presença importante de dívidas relacionadas ao crédito e aos serviços financeiros. O segmento de bancos/cartões concentra 22,79% das dívidas registradas no estado, seguido por financeiras, com 17,82%. Também aparecem com participação relevante os segmentos de serviços, que representam 13,66% das dívidas, varejo, com 12,03%, e cooperativas, com 10,65%. Na sequência estão utilities, com 9,72%, telecom, com 5,51%, e securitizadoras, com 2,53%.

  1. Existe algum perfil de consumidor ou faixa de renda que esteja sendo mais afetada pela inadimplência em Santa Catarina?

Os dados do Mapa da Inadimplência permitem observar diferenças no perfil dos consumidores inadimplentes em Santa Catarina, especialmente em relação a gênero e faixa etária. Entre os inadimplentes do estado, 52,2% são homens e 47,8% são mulheres. Em relação à idade, a maior concentração está na faixa de 26 a 40 anos, que representa 37,1% dos inadimplentes, seguida pelo público com idade entre 41 e 60 anos, com 34%. Acima dos 60 anos, somam 16,4%, e até 25 anos, 12,5%.

  1. A pesquisa mostra que metade dos brasileiros gastou mais do que pretendia no primeiro semestre. Quais são os principais erros de planejamento financeiro que podem levar uma pessoa ao endividamento?

Um dos principais erros é não ter clareza sobre quanto entra e quanto sai do orçamento mensal. Gastar mais do que ganha, assumir muitas parcelas e considerar o limite do cartão como parte da renda também podem comprometer a capacidade de pagamento. Outro ponto de atenção é a falta de uma reserva financeira para imprevistos, que pode levar ao uso de crédito ou empréstimos em momentos de emergência. Também é importante planejar despesas sazonais e, diante dos primeiros sinais de dificuldade, buscar alternativas de negociação antes que juros e encargos aumentem a dívida. 

  1. O aumento de 64% para 69% na intenção de economizar indica uma mudança efetiva no comportamento do consumidor ou ainda é cedo para afirmar isso?

O crescimento da intenção de economizar é um sinal positivo de maior preocupação com o planejamento financeiro, mas ainda é cedo para afirmar que isso representa uma mudança consolidada de comportamento. A intenção precisa se transformar em hábitos concretos, como revisão do orçamento, redução de gastos desnecessários e criação de uma reserva para emergências. O dado, porém, mostra que mais consumidores estão colocando a organização financeira entre suas prioridades, o que pode ser um primeiro passo importante para uma mudança mais duradoura. 

  1. Para uma pessoa que atualmente está inadimplente, qual deveria ser o primeiro passo para começar a reorganizar a vida financeira?

O primeiro passo é ter clareza sobre a própria situação financeira. Isso significa levantar todas as dívidas, identificar valores, credores, taxas de juros e condições de pagamento, além de colocar no papel a renda e os gastos mensais. Com esse diagnóstico, fica mais fácil entender quanto realmente pode ser destinado à quitação das dívidas sem comprometer despesas essenciais. A partir daí, o consumidor pode buscar alternativas de renegociação que estejam de acordo com sua capacidade de pagamento. 

  1. É melhor tentar quitar primeiro a dívida de maior valor ou aquela que possui os juros mais altos?

Não existe uma única estratégia que funcione para todos os consumidores. De maneira geral, priorizar dívidas com juros mais altos pode ajudar a evitar que o débito cresça ainda mais, mas também é importante considerar o impacto de cada dívida no orçamento e as condições oferecidas para negociação. O mais importante é analisar o conjunto das dívidas e estabelecer uma ordem de prioridade que permita avançar sem assumir parcelas que não poderão ser pagas. 

  1. Em que situações uma renegociação pode realmente ajudar o consumidor e em quais casos ela pode apenas adiar o problema?

A renegociação pode ser uma boa alternativa quando oferece condições que realmente cabem no orçamento do consumidor, como redução de juros, descontos ou um prazo que permita quitar a dívida sem comprometer as despesas básicas. O problema aparece quando a pessoa aceita uma parcela que não consegue sustentar ou contrai uma nova dívida para pagar a anterior sem rever os hábitos que levaram ao endividamento. 

  1. O que o consumidor deve analisar antes de aceitar uma proposta de renegociação?

É importante olhar além do valor da parcela. O consumidor deve verificar o valor total que será pago ao final do acordo, as taxas e juros envolvidos, o número de parcelas, as condições para pagamento e eventuais consequências em caso de atraso. Também precisa comparar a proposta com sua renda e seu orçamento mensal para ter certeza de que conseguirá manter os pagamentos até o fim. Uma negociação só é positiva quando a condição acordada é sustentável para a realidade financeira daquele consumidor. 

  1. Quais cuidados devem ser tomados para evitar novos endividamentos depois de limpar o nome?

Limpar o nome é apenas uma etapa da reorganização financeira. Depois disso, é importante manter um orçamento mensal, acompanhar os gastos e evitar assumir parcelas que comprometam uma parcela excessiva da renda. Também é recomendável reconstruir gradualmente uma reserva para imprevistos, já que o levantamento da Serasa mostra que 29% dos brasileiros têm como prioridade formar uma reserva de emergência. Outro cuidado é diferenciar crédito disponível de dinheiro disponível: ter limite no cartão, por exemplo, não significa necessariamente ter capacidade para assumir uma nova despesa.

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O cenário da inadimplência em Santa Catarina mostra que o desafio financeiro ainda é significativo, mas também revela sinais de que muitos consumidores estão dispostos a mudar essa realidade. O crescimento nas renegociações demonstra que buscar informação, negociar e reorganizar o orçamento são passos importantes para recuperar o equilíbrio financeiro.

Mais do que simplesmente limpar o nome, o objetivo deve ser construir uma relação mais saudável com o dinheiro, evitando que novas dívidas comprometam novamente o orçamento familiar. Para isso, planejamento, controle dos gastos e uma reserva para imprevistos podem fazer a diferença no longo prazo.

A informação também tem um papel fundamental nesse processo. Entender as próprias dívidas, conhecer as condições de uma negociação e avaliar se uma parcela realmente cabe no orçamento são atitudes que podem ajudar o consumidor a tomar decisões mais conscientes.

A entrevista reforça que sair da inadimplência é possível, mas exige organização, planejamento e escolhas que estejam de acordo com a realidade financeira de cada pessoa.

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