A incapacidade de entender

O analfabetismo funcional é a praga que mais faz estrago no desempenho de alunos do ensino fundamental e ensino médio. No ensino superior esse problema também existe, numa escala mais reduzida, pois a maioria dos analfabetos funcionais não avança até o terceiro grau. Ainda assim, o número de diplomados com essa deficiência é muito grande. Segundo dados do Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf), o índice chega a 12% do total de formados. Este Indicador é apontado por um estudo feito por fundações e ONGs, e serve como referência no Brasil.

O analfabetismo funcional existe quando a pessoa é incapaz de entender totalmente o que lê, de interpretar um texto, entender notícias e até de fazer certos cálculos. Isto tem consequências danosas. Se a gente considerar que esse analfabetismo está enraizado na vida do país há séculos, temos a resposta à pergunta que não quer calar: por que o Brasil, rico do jeito que é, ainda é um país atrasado? O analfabetismo funcional não impede que o cidadão se desenvolva, ocupe funções diversas, se torne um profissional liberal e até um cidadão de destaque. Prova disso é que temos analfabetos funcionais no meio empresarial, nas atividades liberais, nos esportes e na política. Mas é um mau negócio. Como esperar que alguém que não sabe interpretar um texto, interprete bem a legislação ou entenda quais ações o Estado precisa desenvolver para garantir o bem-estar e direitos sociais?

Há tempo que são feitos estudos sérios sobre o analfabetismo no Brasil e faz décadas que se sabe que o país não vai deslanchar enquanto a educação não for prioridade. Mas é difícil ter esperança de que as coisas mudem, pois a política está infestada de analfabetos funcionais que ditam as leis ou administram. De vez em quando aparece um vereador, um deputado ou até ministro descarregando sua ignorância contra a educação. Em alguns casos tem quem chegue ao patamar do ódio contra instituições de ensino e professores. Então, se for preciso tirar dinheiro de algum lugar para aumentar os já altos salários ou bancar o gastos espúrios em gabinetes, de onde vão tirar o dinheiro? Da Educação, é claro; em segundo lugar, da Saúde.

Ao lado dessa incapacidade, existe também a má vontade de compreender. É quando tudo está claro, mas o indivíduo não quer aceitar o óbvio. Pode ser por estupidez ou presunção. O sujeito acha que as placas de regulamentação e advertência de trânsito, por exemplo, estão ali só para enfeitar, não dizem respeito a ele. Temos sempre muitos exemplos, alguns em casos que o desrespeito implica em tragédia. E os outros casos mais simples, como estacionar em local proibido, ou obstruir uma passagem. Tem muitas garagens com a placa de “proibido estacionar” na porta, como se já não estivesse claro que não pode parar na frente. Provavelmente não foi para analfabetos funcionais que puseram a placa ali. Foi para estúpidos e presunçosos.

Em Blumenau, na margem esquerda, no centro, tem uma placa que não deixa dúvidas: é proibida a circulação de veículos automotores. No  entanto, dias atrás quase fui atropelado por uma scooter elétrica ao mudar de pista enquanto fazia minha caminhada diária. O pior é que o desrespeito às leis está tão naturalizado, que ainda pedi desculpas ao sujeito que carregava uma criança com ele na moto.

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