O otimismo científico
Depois que Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua em 1969 e mais dez astronautas caminharam no solo lunar nas cinco missões Apolo seguintes, parecia que nada mais era impossível.
Lembro que logo após o sucesso da Apolo 11, primeira missão a levar o ser humano à Lua, um jornal ou uma revista semanal, naquela euforia, estampou na capa a manchete Próximo destino: Marte, hoje título de um livro da jornalista Marina Vidigal.
A revista Cruzeiro foi na mesma direção, com destaque na capa da edição de 7 de agosto de 1969. Na ocasião havia um entusiasmo muito grande com a ciência, principalmente em relação ao cosmos.
Uma das razões era que o mago projetista do poderoso foguete Saturno V das missões Apolo, o engenheiro alemão Wernher von Braun, tinha sido também um dos gênios que fizeram os cálculos para levar o homem à Lua e já tinha no seu currículo o livro Das Marsprojekt (O Projeto Marte), publicado em 1952.
Li há uns anos que este livro de Von Braun é usado pela Nasa no estabelecimento da trajetória dos rovers que pousam em Marte e será usado também na missão que levará humanos à sua superfície, provavelmente até 2040.
Ninguém duvidava de Von Braum, principalmente porque na sua fase de “cafajeste” na Segunda Guerra Mundial ele tinha bombardeado Londres com seus foguetes V-2 com grande eficiência. Sorte dos ingleses é que àquela altura a Alemanha já estava enfraquecida e oito meses depois capitularia.
Nos Estados Unidos, Von Braun ganhou o status de gênio e tinha virado quase um pop star. Seu feito de construir o foguete mais poderoso da história e levar o homem à Lua era celebrado até pelos anteriormente inimigos ingleses.
A confiança na ciência se estendia a outras áreas. Seis meses antes do pouso na Lua, o cirurgião sul-africano Christiaan Barnard havia feito o primeiro transplante de coração no mundo, na Cidade do Cabo, África do Sul.
Esta façanha dava uma nova esperança aos cardíacos graves e elevava a medicina a um patamar nunca atingido.
Só que aquela euforia foi abrandando, especialmente em relação às conquistas espaciais. Havia a Guerra Fria e outros problemas para serem resolvidos.
Já na Apolo 12, que foi à Lua também em 1969, não houve grande audiência, e o público se desinteressou. O nosso satélite, visto pela TV, parecia um lugar bem sem graça e os astronautas andando por lá pareciam mais cangurus em câmara lenta.
Tanto que a cobertura dos jornais passou a ser modesta.
Só houve uma reviravolta em abril de 1970, quando a Apolo 13, a caminho da Lua, sofreu uma avaria com a explosão de um tanque de oxigênio. A missão foi abortada, e enfrentando problemas elétricos, pane nos instrumentos e temperatura baixíssima os astronautas tiveram de desempenhar papel de super-heróis para conseguirem retornar, reentrar na atmosfera e pousar sãos e salvos no Pacífico.
Era a verdadeira missão impossível. O mundo inteiro ficou ligado 24 horas e por toda a parte havia correntes de orações para que tudo desse certo. E deu.
Pronto, acabou a graça.
Mas aquele sonho de que em breve iríamos a Marte trocar ideias com os marcianos foi sendo adiado. Até a Lua mesmo ficou esquecida lá no firmamento, entregue aos poetas e sonhadores.
Tanto que se passaram 57 anos até que uma nova tripulação de astronautas fosse vê-la de perto outra vez, fato ocorrido agora em abril, com a missão Artemis II.
Isto não quer dizer que a Lua ficou esquecida. As pesquisas continuaram e novos telescópios e outros equipamentos revelaram muito mais do nosso satélite do que se imaginava até então.
E quanto a Marte, frequentemente a Nasa passou a celebrar a conquista do planeta através dos seus cinco rovers que pousaram seguramente lá, enviando imagens magníficas e dados valiosos sobre o seu solo, rochas e atmosfera.
Esses dados são essenciais para uma futura missão tripulada. A China também já levou um rover até Marte e está no páreo dessa nova corrida espacial.
Nos quase 57 anos que nos separam daquele fantástico julho de 1969, a ciência, embora nem sempre celebrada, deu passos largos, e o conhecimento aumentou de forma vertiginosa.
E nada provocou tantas transformações como a revolução digital. Tudo se tornou rápido demais e os avanços foram fantásticos.
Agora estamos diante de uma nova revolução, com a robótica utilizada em larga escala e a Inteligência Artificial (IA). Desta vez, porém, há um certo temor de que estamos indo longe demais e o domínio da máquina sobre o homem poderá levar a humanidade ao caos.
E isto não é futurologia, é projeção baseada em evidências.
Algumas universidades americanas se debruçam há tempo sobre os avanços tecnológicos e fazem projeções surpreendentes. Se o mundo dependesse apenas da ciência e não da política, talvez todos os problemas estariam resolvidos.
Em 2024, o prêmio Nobel de Química, Demis Hassabis, fez uma projeção otimista em relação ao tratamento de doenças. Segundo ele, com a ajuda da IA, em dez anos todas as doenças teriam cura.
Considerando que ele fez essa afirmação em 2024, significa que até 2034 essa profecia vai se cumprir, claro, se a bola de cristal dele for de boa procedência.
Mas em 2025 ele já mudou sua previsão. Para Hassabis, que é o presidente executivo da Google DeepMind, unidade de pesquisa de IA do Google, até 2030 haverá cura para todas as doenças.
Inclusive ele fez um apelo:
“Não morram até 2030!”
A ciência deu passos gigantescos nos últimos 100 anos, e a projeção da curva do conhecimento hoje mostra que a cada 13 meses o acúmulo de conhecimento dobra e teremos em breve dobras diárias com a IA.
Agora é torcer para que a mesma inteligência que dominará tudo e nos levará a outras dimensões, crie e imponha condições políticas para que haja paz no mundo e justiça social.





