As novas diretrizes brasileiras descartam a prescrição preventiva de levotiroxina para gestantes que apresentam anticorpo anti‑TPO positivo, mas cujos hormônios tireoidianos permanecem dentro da normalidade. Essa mudança rompe com a prática anterior que tratava o exame isolado como indicação automática de terapia hormonal.
A decisão se baseia em três grandes estudos que demonstraram que a levotiroxina não reduz o risco de abortamento nem de parto prematuro em mulheres com anti‑TPO positivo e função tireoidiana normal. “Se os hormônios TSH e o T4 livre estão normais, a mulher é considerada eutireoidiana e não há benefício comprovado em usar levotiroxina, apenas pela gestante ter o anticorpo positivo”, explica Cleo Mesa Júnior, subcoordenador do Departamento de Tireoide da SBEM. Mesmo assim, as gestantes continuarão sob vigilância por apresentarem maior risco de desenvolver hipotireoidismo ao longo da gestação.
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) divulgaram as atualizações durante o 37º Congresso Brasileiro de Endocrinologia e Metabologia, realizado em 28 de setembro no Rio de Janeiro. As recomendações incorporam a nova diretriz da American Thyroid Association (ATA), publicada em junho deste ano.
O Brasil mantém o rastreamento precoce de todas as gestantes desde o início da gravidez, ao contrário da ATA, que sugere testar prioritariamente mulheres com fatores de risco. O critério de risco agora inclui histórico de hipo ou hipertireoidismo, cirurgia ou tratamento prévio da tireoide, doenças autoimunes como diabetes tipo 1, histórico familiar, infertilidade, dois ou mais abortos e uso de medicamentos que interferem na glândula. Idade materna, obesidade e número de gestações anteriores foram retirados da lista por apresentarem baixo poder preditivo.
Para o hipotireoidismo subclínico, com TSH entre 4,0 e 10 mUI/L, o tratamento deve ser iniciado preferencialmente no primeiro trimestre, até a 12ª semana, quando o feto depende mais dos hormônios maternos. Caso o TSH ultrapasse 10 mUI/L, a decisão terapêutica considera o nível de TSH, o T4 livre e a fase gestacional. Diferente da orientação internacional, que recomenda repetir o TSH após uma a três semanas antes de iniciar a terapia, as sociedades brasileiras dispensam essa espera para evitar perda da janela de oportunidade.
Quanto ao iodo, a ATA recomenda suplementação universal, enquanto o Brasil indica a dose de 100 a 150 µg/dia apenas para gestantes com dietas restritivas, veganas ou baixa ingestão de sal iodado. A matéria foi publicada no O Blumenauense, por O Blumenauense.





