Todo mundo conhece a cena. É madrugada, a luz da cozinha se acende, e lá está ela: a barata, parada na parede, com aquela pose de quem paga aluguel. O morador, em pânico, agarra o chinelo e desfere o primeiro golpe com toda a força da sua indignação. Errou. Ou melhor: acertou de raspão. A miserável da barata corre, se esconde atrás da geladeira, e o morador fica ali, ofegante, achando que resolveu o problema.
Não resolveu. E aqui mora a sabedoria popular mais subestimada do Brasil: a barata não morre na primeira chinelada. Ela se assusta, corre, muda de esconderijo… mas continua ali, mais esperta, mais escondida e, pior, mais convencida de que é dona da cozinha.
A eleição presidencial funciona exatamente assim.
O primeiro turno foi a primeira chinelada. O eleitor foi às urnas, desferiu seu golpe de indignação, escolheu o candidato certo, aquele que representa o seu desejo de mudança, e vai pra casa achando que o assunto está encerrado. Só que o resultado sai, e a barata… sobrevive. Fica em segundo lugar, atrás da geladeira do segundo turno, esperando que todo mundo canse de persegui-la. Foi por pouco…
E é aí que a coisa fica séria. Porque a barata, diferente do eleitor, não desiste. Ela não acorda no domingo pensando “ahhh, hoje estou com preguiça de sobreviver”. Ela está lá, ativa, organizada, mordiscando as migalhas da democracia com toda a disposição.
O segundo turno é a segunda chinelada. E a segunda chinelada é, estatisticamente, a que mata. A primeira serve para revelar a disposição; a segunda é a que resolve. Quem mata a barata de verdade é quem vai lá e puxa a geladeira, não quem desiste no meio do caminho e deixa a barata herdando o imóvel.
Tem gente que acha que abster-se no segundo turno é uma postura elegante, quase filosófica: “ahhh não gosto de nenhum dos dois, então fico de fora, não voto”. Que elegância! A barata agradece. Porque voto de protesto, voto nulo, voto em branco e “fiquei em casa vendo novela” têm todos o mesmo efeito prático: são chineladas no chão. Fazem barulho, levantam poeira, e a barata continua na parede. Pior: quem não comparece à segunda chinelada está, na prática, segurando a barata para ela não cair.
E não se iluda: no segundo turno a barata sai de casa. Ela faz campanha, visita eleitores, promete arrumar a cozinha, aparece em rádios e redes sociais com cara de quem mudou. Barata sobrevivente é barata reformada, por fora. Por dentro, continua com o mesmo apetite de sempre. A única força capaz de contrapor essa maratona baratística é o eleitor que entendeu a lição: a democracia não é decidida no primeiro golpe, é decidida em quem volta para dar o segundo.
Então guarde esta máxima no coração… e no chinelo:
A barata não morre na primeira chinelada. Morre quando o dono da casa tem coragem de acertar a segunda.
No dia do segundo turno, não fique em casa. Levante-se, calce o chinelo, e vá às urnas completar o serviço. Porque cozinha limpa não é a que nunca teve barata, é a que teve um morador que não desistiu na primeira tentativa.
Edson José de Souza
Engenheiro, empreendedor e terrível contra as baratas.






Respostas de 2
Belo texto!
Essa segunda chinelada já deveríamos ter feito em 2022. O Buraco seria um pouco menor agora em 2026.
Vida nova para o nosso Brasil! Pelo amor de Deus.
Precisamos salvar a nossa nação.
Temos que acabar com o ninho das baratas.
Seu criadouro é fértil mas de péssima qualidade.
Temos que entrar, fazer um bom trabalho para que não mais retornem.