O Banquete dos Idiotas: O alerta de Sócrates e o rebanho polarizado do Brasil
Em 399 A.C., a brilhante e iluminada democracia ateniense resolveu seu maior problema de forma muito prática: matando o único sujeito que exigia que as pessoas usassem o cérebro. Sócrates não foi executado por corrupção ou traição, crimes que hoje, convenhamos, garantem reeleição, mas pelo pecado imperdoável de fazer perguntas. Ao caminhar descalço questionando as certezas alheias, ele expôs uma fratura que, mais de dois milênios depois, apodrece a céu aberto no Brasil: a tragédia cômica de um sistema aonde o voto chega muito antes do raciocínio.
O diagnóstico socrático era um soco no estômago que a humanidade finge não ter levado. Para ele, o calcanhar de Aquiles da democracia é a sua premissa mais romântica: tratar toda opinião como igual, nivelando por baixo o doutor e o ignorante. O voto do esclarecido vale o mesmo que o voto do sem discernimento… Multidões, afinal, não têm o menor apreço pela verdade. Elas têm fome de conforto. É infinitamente mais fácil aplaudir o demagogo de estimação que afaga suas ilusões do que ouvir o pensador honesto que esfrega a realidade na sua cara. Por que lidar com a complexidade dos fatos quando a mentira vem mastigada, quentinha e com um culpado pronto para todos os seus fracassos?
Essa falha estrutural foi dissecada sem piedade por seus sucessores. Aristóteles alertou que a democracia apodrece e vira “demagogia” quando os líderes percebem que é muito mais lucrativo manipular as emoções da arquibancada do que educar o cidadão. Platão foi ainda mais letal: a democracia é apenas a sala de espera da tirania. A matemática é deprimente: a liberdade nas mãos de um povo sem instrução gera o caos; o caos gera o pânico; e o pânico entrega o poder de joelhos a qualquer lunático que prometa ordem. O tirano não toma o poder à força; ele é convidado a entrar, sentar-se no sofá e governar por uma massa que achou muito cansativo o ato de pensar.
Mas a Grécia Antiga não tem o monopólio dessa constatação. No século XIX, Alexis de Tocqueville olhou para a democracia e cunhou a “tirania da maioria”… o perigo iminente de uma manada medíocre esmagar qualquer pensamento divergente apenas pelo peso do rebanho. Mais tarde, Winston Churchill, com um sarcasmo que hoje lhe renderia cancelamento sumário, resumiu a ópera: “O melhor argumento contra a democracia é uma conversa de cinco minutos com o eleitor médio”.
Basta olhar para a polarização esquizofrênica do Brasil atual para constatar que Churchill foi, na verdade, um otimista. O hospício não apenas abriu as portas, como os pacientes organizaram eleições. Vivemos o auge de uma histeria coletiva onde esquerda e direita se digladiam nas ruas e nas redes sociais como se fossem inimigas mortais, salvadoras da pátria lutando contra o apocalipse. A piada trágica que ninguém entende? A mão que alimenta ambas as frentes é rigorosamente a mesma. O açougueiro é o mesmo, só muda a porta do abatedouro.
O que temos no Brasil não é um debate de ideias, mas o choque brutal entre dois exércitos de cegos. Em cada polo, uma minoria cínica e muito bem paga pensa, planeja e enriquece, enquanto conduz uma manada colossal de seguidores desprovidos do mais básico discernimento crítico.
Esses exércitos não votam; eles mugem. Votam por raiva, por vingança, por pertencimento a um fã-clube. É o cenário dos sonhos descrito por Hannah Arendt no século 20: o terreno ideal para o autoritarismo não é feito de militantes convictos, mas de pessoas para as quais a fronteira entre fato e ficção simplesmente deixou de existir. A propaganda política contemporânea atingiu o nirvana: não precisa mais persuadir ninguém, basta criar um povo tão uniformemente imbecilizado que a própria ideia de controle se torna desnecessária. Eles se policiam, se censuram e se atacam sozinhos, de graça, pelo Wi-Fi.
Enquanto os dois lados se xingam de fascistas e comunistas, jurando que estão salvando o país pelo WhatsApp, a verdadeira tragédia passa batida: o cidadão brasileiro terceirizou o próprio cérebro.
Sócrates virou o copo de veneno voluntariamente porque acreditava que “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Isso não é frase de para-choque de caminhão ou post motivacional de coach; é o mais grave dos alertas políticos. Um povo que não examina a própria vida, suas crenças e seus preconceitos, jamais terá capacidade intelectual para examinar os parasitas que o governam.
A pergunta que ecoava em Atenas continua sem resposta no Brasil: você escolheu o que defende, ou o algoritmo e o seu político de estimação escolheram por você? Você sabe por que apoia o seu lado, ou apenas sabe quem você foi ensinado a odiar? Enquanto a política for feita de manadas que se recusam a questionar, continuaremos sendo o gado no pasto dos demagogos. Afinal, a regra da história não perdoa: quem tem preguiça de pensar por si mesmo, está condenado a bater palma para quem pensa por ele!!!
Edson José de Souza.
Engenheiro e empreendedor






Uma resposta
Parabéns Edson muito atual o banquete dos idiotas .gostei , valeu.