A Copa do Mundo de 2026 acabou. Espanha bicampeã com um futebol impecável, Argentina vice, para alegria de alguns, ou muitos, brasileiros, e o Brasil amargando, com o perdão da palavra, o “cagagésimo” lugar. Mais precisamente, o 11º posto, eliminado pela Noruega nas oitavas de final, igualando a segunda pior campanha da história em 23 participações, a mesma indignidade de 1966. Só foi superior à 14ª colocação de 1934. Um time comandado por Carlo Ancelotti, supostamente um dos maiores técnicos do mundo, que não conseguiu extrair dos seus “dublês de jogadores” sequer uma chegada às quartas.
Não quero discutir o pífio desempenho da Seleção. Quero falar sobre as diferenças que nos separam dos nossos hermanos argentinos, vice campeões… E falo com propriedade: em 2025, peguei minha moto, junto com mais três amigos, Gil, Edinho e Ricardo, e fui de Blumenau a Ushuaia, 30 dias cruzando a Argentina literalmente de cabo a rabo, com alguns desvios pelo Chile, num total de 30 dias de estrada. Eu já conhecia Buenos Aires e Mendoza de viagens anteriores, mas percorrer o país inteiro, de norte a sul, foi outra coisa.
Preciso confessar algo que talvez surpreenda quem me conhece. Meus sogros têm casa de praia na maravilhosa Canasvieiras, na Ilha de Santa Catarina, reduto argentino por excelência. Tem tanto argentino lá que, se a gente chutar uma moita, sai um de trás. Eu sempre fui respeitoso com os hermanos, mas nem sempre simpático. Carregava aquele preconceito velho de brasileiro: que são metidos, soberbos, que nos tratam com superioridade.
Pois a viagem me desmontou por completo. De Corrientes a Puerto Santa Cruz, de Mendoza a El Calafate, dali ao Ushuaia, a receptividade foi, salvo uma raríssima exceção, espetacular. Gente que parava para ajudar na estrada, que indicava caminho, que abria a casa, que servia um mate e puxava conversa. Em Ushuaia, provei um cordeiro patagônico que, sem exagero, justificaria a viagem inteira, aquele assado de cordeiro ao fogo de lenha, lentíssimo, defumado, com a carne se desfazendo, é algo que marca para sempre. Tive sim um incidente: um garçom malcriado em Ushuaia, que não gostou do Gil e que era visivelmente antipático com brasileiros. Foi a exceção que confirmou a regra. Todos os outros hermanos que nos receberam, do norte árido à terra do fogo, foram de uma atenção que me envergonhou do meu preconceito anterior.
Saí da Argentina com uma convicção: preciso oferecer aos hermanos, aqui no Brasil, o mesmo tratamento que recebi lá. Não que eu vá agredir algum garçom argentino que encontrar por Canasvieiras, jamais. Mas mudou alguma coisa dentro de mim. E foi essa mesma viagem, essa imersão no país, que me fez enxergar com outros olhos o que está aconteceu politicamente do outro lado da fronteira.
Nós, brasileiros, costumamos apontar inúmeros defeitos nos Hermanos: soberbos, metidos, presunçosos. Eu mesmo fazia isso. Mas há comparações que preciso fazer e que demonstram, com dados frios e objetivos, que eles hoje levam enorme vantagem sobre nós. Eles têm Messi; nós temos Neymar. Eles têm Milei; nós temos Lula. Só por esses dois exemplos atuais, sem falar do passado, fica evidente a vantagem argentina no futebol e na política. Mas o que mais me incomoda, depois de ter cruzado aquele país de ponta a ponta, é ver a diferença entre a nossa reação ao que os políticos fazem conosco e a reação dos hermanos quando submetidos a situações semelhantes. A começar por eleger um liberal absolutamente outsider para a presidência da república, que está restabelecendo a imponência argentina na América do Sul e no mundo.
Enquanto o Brasil de Lula acumula três déficits fiscais consecutivos e rombos nas contas públicas, a Argentina de Milei encerrou 2025 com superávit fiscal primário de 1,4% do PIB pelo segundo ano seguido. O país não conseguia encadear dois anos consecutivos de balanço positivo desde 2008. Foi o primeiro superávit financeiro em 14 anos. O projeto de orçamento argentino para 2026 prevê superávit primário de 1,5% do PIB. Aqui, o governo brasileiro tenta conter o estrago com uma enxurrada de estímulos, preso aos mesmos gargalos que há décadas limitam o crescimento do país.
A dívida pública argentina despencou de 155,7% do PIB em 2023 para 82,6% ao fim de 2024 e atingiu mínimo de 76,4% no segundo trimestre de 2025, mais que cortada pela metade em dois anos. No Brasil, a dívida segue trajetória inversa, engolida por gastos compulsórios e promessas que o país não pode pagar.
A inflação é o ponto que mais impressiona. Quando Milei assumiu, a Argentina convivia com inflação anual acima de 200%, anomalia que destruíra a confiança na moeda e empobrecera gerações. Em junho de 2026, a inflação mensal argentina caiu para 1,9%, e a variação anual do IPC registrou 33,5%, ainda alta, mas em queda consistente pelo segundo mês seguido, no nível mais baixo em oito meses. O orçamento aprovado pelo Congresso argentino projetava inflação de 10,1% ponta a ponta para 2026. O plano está funcionando. No Brasil, o IPCA de junho de 2026 veio em 0,16% no mês, número que parece admirável, mas que mascara uma economia estagnada, dependente de endividamento e estímulo público para não recuar.
O PIB argentino cresceu 2,3% no primeiro trimestre de 2026 frente ao mesmo período do ano anterior, impulsionado principalmente por exportações. Sim, o ritmo desacelerou frente aos 6,1% do mesmo recorte de 2025, ajuste natural após o choque inicial de reformas. No Brasil, o PIB acumulado em quatro trimestres fechou em 2,0% no 1º tri de 2026, e a OCDE projeta apenas 1,6% de crescimento para o ano. A maioria dos economistas aponta que boa parte da expansão brasileira depende justamente dos estímulos governamentais, não de produtividade, não de reforma estrutural, não de competitividade. Crescimento de aluguel, não de dono.
Milei reduziu mais da metade dos ministérios, cortou expressivamente salários do funcionalismo público, desvalorizou a moeda para alinhá-la à realidade e impôs restrições rigorosas ao crescimento de pensões. A “motosserra” contra o déficit público não foi retórica, foi execução. O resultado é uma Argentina que volta a ser respeitada pelos mercados, que paga sua dívida, que projeta superávits. Eu vi isso nas estradas: postos de combustível abertos, comércio ativo, gente trabalhando. Não é mais o país de inflação galopante que eu temia encontrar. Enquanto isso, o Brasil assiste, passivo, à escalada do gasto público, à expansão da máquina administrativa e à erosão da confiança externa.
A diferença fundamental não está apenas nos números. Está na atitude do eleitorado. Os argentinos, cansados de décadas de peronismo, de inflação crônica e de promessas vazias, tiveram a coragem de eleger um outsider que prometeu dor… e cumpriu. Elegeram alguém que disse que o ajuste seria duro e que não haveria mágica. Nós, brasileiros, continuamos a premiar o velho esquema, a aceitar a narrativa de que o Estado resolve, de que basta distribuir para crescer. Continuamos acreditando que se pode gastar mais do que se arrecada indefinidamente, como se a conta nunca chegasse.
Ela chegou na Argentina, e eles a pagaram. Aqui, ela apenas foi postergada, repassada para nossos filhos e netos, sob a forma de juros e inflação.
Há quem critique Milei pelo custo social do ajuste, pela queda do poder de compra, pelo crescimento da informalidade. Críticas legítimas. Mas é preciso perguntar: qual é a alternativa? Continuar como o Brasil, financiando o presente com o futuro, acumulando déficit atrás de déficit, sem nunca enfrentar a causa estrutural do problema? A Argentina escolheu o remédio amargo. O Brasil escolheu a anestesia. O problema da anestesia é que, quando ela passa, a dor ainda está lá… e maior.
Voltei daquela viagem de moto diferente em muitas coisas. Não só na forma como trato os argentinos que encontro em Canasvieiras, com mais simpatia, mais abertura, menos preconceito. Voltei diferente na forma como olho para o meu próprio país. A Copa mostrou no campo a diferença que já existe nas arquibancadas e nas urnas. Uma Argentina que se respeita, que se reforma, que encara seus demônios. Um Brasil que se conforma, que se endivida, que finge que nada mudou. Os hermanos têm muito a nos ensinar, se tivermos humildade para olhar. Eu, depois de 30 dias de estrada, aprendi pelo menos uma coisa: que o preconceito é um luxo que não podemos mais nos dar. Nem com os vizinhos. Nem com a verdade dos números.
Edson José de Souza
Engenheiro e empreendedor
Artigo de opinião baseado em dados oficiais do INDEC (Argentina), IBGE (Brasil), Banco Central argentino, FMI, OCDE, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Reuters, CNN Brasil e G1, compilados em julho de 2026.






Uma resposta
Excelente narrativa meu amigo; faço minhas também suas palavras e expectativas por novo Brasil
Rd